ENTRE LEMBRANÇAS E ESQUECIMENTOS: OS ESCRITOS DE VIOLÊNCIA E AS MEMÓRIAS DE MIGRANTES NO SUL E SUDESTE DO PARÁ
Bárbara Maria Marques
Anna Carolina de Abreu Coelho
Resumo: o resumo desta pesquisa busca em primeiro lugar apresentar a luta pela terra tanto como objeto de estudo consolidado, quanto uma representação da região; e num segundo momento pretende analisar como a violência e os assassinatos na luta pela terra se inscreveram na memória social sobre a região. As lembranças foram registradas por meio de entrevistas e a análise das mesmas foi feitas por meio da metodologia da história oral. Tentamos aqui responder até que ponto as escritas de pesquisadores e as memórias do lugar entrelaçam na seleção do que deve ser lembrado ou esquecido? A discussão que perpassa esse momento da pesquisa é a de que a escrita acadêmica junto aos arquivos e outros lugares de memória inscrevem a violência na memória e na identidade da região se entrelaçando a uma lembrança expressa na oralidade.
Palavras-chave: memória e história; escritos de violência; a luta pela terra.
Durante esta pesquisa notou-se que a violência e os assassinatos promovidos pelos conflitos agrários se tornaram determinante nas escolhas do que se deve lembrar e esquecer sobre as regiões sul e sudeste do Pará. Chegamos a esta constatação quando fizemos uma revisão bibliográfica dos estudos sobre a ocupação humana nestas regiões e quando buscávamos refletir sobre a memória dos migrantes que vieram para Xinguara nas décadas de 1970 e 1980.
Ao longo da revisão de textos é possível notar que ocorre um enfoque em entender a ocupação humana dessas regiões partindo dos conflitos pela terra. Essa imagem é fortíssima a exemplo do massacre de Eldorado dos Carajás na década de 1990, largamente discutido na imprensa e monumentalizado na própria cidade de Eldorado através da data do massacre e do memorial na curva do S.
Ao longo das entrevistas alguns migrantes arguiram que uma pesquisa sobre a região certamente seria sobre a questão agrária, a exemplo de uma das entrevistadas que indagou: “sobre o que é mesmo a entrevista? É sobre a luta pela terra?” . Outro entrevistado indicou essa mesma possibilidade de pesquisa ao sugerir que o seu amigo fosse entrevistado, pois este teria mais informações desse período, já que tinha chegado antes dele, no “tempo da matança”.
Até que ponto as escritas de pesquisadores e as memórias do lugar se entrelaçam na seleção do que deve ser lembrado ou esquecido?
A luta pela terra: um tema consolidado
Ao mesmo tempo em que o processo de migração e os conflitos se acirravam desde os fins da década de 1970, estudiosos especialmente no campo da sociologia se debruçavam sobre a luta pela terra consolidando este tema dentro das universidades. Dentre os estudiosos encontramos o sociólogo José de Souza Martins, o economista e teólogo ligado à teologia da libertação Jean Hébette e o cientista político Anthony L. Hall.
José de Souza Martins (1981), ao estudar a locomoção de lavradores no Brasil ao longo dos anos 80, discute que aqueles que não desempenhavam trabalhos nas grandes propriedades de terra se locomoviam a procura de terras ainda não ocupadas pelas grandes fazendas para abrir suas posses e sua roça. Na medida em que as grandes propriedades se expandiam sobre essas áreas, expulsavam os posseiros da terra. Essa lógica de ocupação, que persistiu por séculos, explicaria a origem dos conflitos pela posse da terra no Brasil e no Sul do Pará.
Jean Hébette, por sua vez, discute que os conflitos de terra na “Amazônia paraense” ocorreram em função da facilidade de acesso as terras devolutas pelos grandes proprietários incentivados pelo governo, e pelos migrantes vindos de diversas regiões brasileiras a partir da década de 1970. O povo impelido pelas suas necessidades e os grandes empresários em busca de lucros cruzou a fronteira da Amazônia e passou a competir os recursos da região no mesmo espaço e no mesmo lugar. Por esta razão, segundo Jean Hébette, o conflito violento foi inevitável (HÉBETTE, 2004).
As pesquisas do cientista político Anthony L. Hall estão centradas na implantação do Projeto Grande Carajás. Segundo ele, as políticas oficiais de desenvolvimento do Projeto Carajás priorizaram a formação de latifúndios na região por meio de subsídios oferecidos aos grandes proprietários de terras e ignoraram os interesses dos pequenos agricultores, que migraram para a Amazônia ao longo do tempo. Está atitude para Hall foi uma “estratégia desequilibrada de desenvolvimento da região” e provocou uma crise fundiária na Amazônia e, sobretudo a “violência rural” (HALL, 1991).
Outros estudiosos como Otávio Ianni, Marianne Schmink, Charles H. Wood e Airton Pereira também se debruçaram sobre o tema.
Otavio Ianni discute que à medida que a empresa agropecuária foi se formando sobre as terras ocupadas por migrantes, esta os expulsavam, obrigando-os trabalhar nas grandes fazendas tornando-se peões ou vaqueiros. Para Ianni (1978, p144-152), a expulsão dos posseiros da terra seria o motivo da origem do conflito pela terra no Sul do Pará.
Os estudos dos pesquisadores estadunidenses Marianne Schmink (antropóloga) e Charles H. Wood (Sociólogo) de forma semelhante às outras pesquisas afirmam que os elementos propulsores dos conflitos violentos e assassinatos de ocupantes de terra na região são explicados pelo movimento de agentes econômicos capitalistas. Para os pesquisadores esse movimento econômico aconteceu por posicionamentos ideológicos que alimentavam a ideia de ausências, carências, ineficiência e necessidade de intervenção do Estado.
Dentre essas pesquisas, destaca-se ainda a tese do historiador Airton dos Reis Pereira (2015). Para ele, os conflitos mais intensos e violentos pela terra aconteceram, sobretudo quando trabalhadores rurais passaram a ocupar as terras das grandes empresas, principalmente a partir de 1975. Pereira enfatiza ainda que os conflitos na região contaram com envolvimento não só de trabalhadores rurais, proprietários e empresários rurais, mas também de agentes ligados à Igreja Católica e funcionários de aparelhos do Estado como o INCRA (Instituto de Colonização e Reforma Agrária) e a Polícia Militar. Ele apresenta diferentes atores interagindo ao longo do processo conflituoso e, ao mesmo tempo, amplia as análises do plano violento para a dimensão litigiosa, inferindo que a presença dos mediadores em muitos casos possibilitou que a disputa acontece no campo jurídico e não a “mão armada”.
Entre o texto de Otávio Ianni publicado em 1978 e o de Airton Pereira publicado em 2015, são mais de trinta anos em que a luta pela terra na Amazônia se inseriu com um objeto de pesquisa nos campos da sociologia, história e antropologia, além de estudos interdisciplinares.
“É sobre a luta pela terra?”
Durante o agendamento das entrevistas um dos sujeitos sugeriu que Maria da Guia, sobrevivente do conflito agrário da Tupã- Ciretrã teria lembranças com mérito de ser pesquisada e estudada: “Ah! entrevista a Maria da Guia, ela tem uma história e tanto desse período, ela participou do conflito”. Da mesma forma outra entrevistada enfatizou: “a Maria da Guia é desse tempo, se ela te contar, pensa que história!” 9. O mesmo aconteceu com outro entrevistado, ao fazer referência a Tupã-Ciretrã imediatamente me perguntou: “já entrevistou a Maria da Guia?”.
De acordo com Keith Jenkins (2001, p.42) todas as classes e/ou grupos escrevem suas respectivas “autobiografias coletivas” criando através da história suas identidades. É por meio dessa forma de lembranças e de identidades locais que versa a indicação apresentada pelos entrevistados. Notou-se que eles fizeram no presente a escolha de que a identidade do lugar e o objeto de estudo da história deveria ser os conflitos pela terra. Assim como as escritas, a própria memória seleciona o que lembrar e o que esquecer e
Maria da Guia seria uma pessoa com “história” por ter vivido o “tempo da matança”.
É possível que a memória sobre os conflitos violentos no sul do Pará e a presença recorrente do nome de Maria da Guia nos depoimentos tenha a ver com a prática de se enfatizar os grandes eventos ou de se criar a figura de um herói em torno dos acontecimentos importantes (Cainelli, 2004, p.5-19). Algo semelhante pode ter acontecido com o outro entrevistado que sugeriu que se entrevistasse o amigo, já que ele teria vivido em Xinguara no tempo em que a violência pela terra era muito comum.
Falar do passado de Xinguara é para ele falar do “tempo da matança” e isso parecia ser, na sua concepção, um evento bem mais significativo que outros acontecimentos do lugar. É provável ainda que os eventos violentos da região tenham se tornado significativo para estes entrevistados em detrimento de outros, em função da indignação de uma memória traumática que pode ter se plasmado pela oralidade, pela mídia, pelos arquivos, lugares de memória ou mesmo através de livros e outros textos acadêmicos. Um emaranhado de vários arquivos mnemónicos de diferentes suportes do corpo aos arquivos.
Conclusões
A memória de uma migração “escrita a sangue” no sul e sudeste do Pará marcou estudos de pesquisadores desde a década de 1970 até a atualidade. São estudos que visibilizam e discutem a questão agrária e a luta pela terra nessa região. Essa escrita acadêmica junto aos arquivos e outros lugares de memória inscrevem a violência na memória e na identidade da região se entrelaçando a uma lembrança expressa na oralidade. Assim como um brasileiro que no exterior ao ouvir um samba ou um argentino que ao ouvir um tango são remetidos a um sentimento de pertencimento aos seus respectivos países, assim como estes, os migrantes entrevistados que chegaram a Xinguara durante os anos 70 e 80 são remetidos às lembranças de violência do lugar. Em algum momento esse tema se tornou essencial na representação e identidade local. Sendo assim, a história de Xinguara adquire sentido na lembrança das vidas individuais de cada um dos entrevistados, que de maneira imediata ou entrelaça às suas trajetórias de vida identificam suas vidas com as violências daqueles tempos, delimitando claramente o que lembrar e o que esquecer.
Referências
CAINELLI, Marlene. Construção dos heróis e a memória nacional entre os não letrados. História & Ensino, Londrina, v. 10. 2004.
MARTINS. José de Souza. “A luta pela terra: índios e posseiros na Amazônia Legal” In: Os camponeses e a política no Brasil: as lutas sociais no campo e seu lugar no processo político. Editoras Vozes, Petrópolis, 1981.
FEITOSA, Terezinha Cavalcante. Questão agrária, violência e poder público na Amazônia brasileira: o assassinato do líder sindical João Canuto de Oliveira. Tese (Doutorado) - Curso de Pós-graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento Agricultura e Sociedade, Instituto de Ciências Humanas e Sociais, 2011.
HALL, Antony L. Amazônia, Desenvolvimento para quem: desmatamento e conflito social no Programa Grande Carajás. Rio de Janeiro: Zahar Editor, 1991.
HÉBETTE, Jean. O grande Carajás: um novo momento da história moderna na Amazônia Paraense In: Cruzando a Fronteira: 30 anos de estudo do campesinato na Amazônia. Belém: ADUFPA, 2004.
IANNI, Otávio. A luta pela terra: história social da terra e da luta pela terra numa área da Amazônia. Petrópolis: Vozes, 1978.
JENKINS, Keith. A história repensada. São Paulo: Contexto, 2001.
MARTINS, José de Souza. Expropriação e Violência: a questão política no campo. 3ª edição, São Paulo: Hucitec, 1991.
PEREIRA, Airton dos Reis. Do posseiro ao Sem-terra: a luta pela terra no Sul e Sudeste do Pará. Recife: Editora UFPE, 2015.
PEREIRA, Luzia Canuto de Oliveira. Terra e natureza: assentamentos rurais de Rio Maria (1974-2004). 2006. Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-Graduação em História Social da Amazônia, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Pará, Belém, 2006.
SCHMINK, Marianne; WOOD, Charles H. Conflitos Sociais e formação da Amazônia. Belém: Ed. UFPA, 2012.
A precarização das condições de trabalho dos migrantes pode ser considerada uma falha do planejamento estatal que visava a transferência de mão de obra, ou é possível sustentar a hipótese de que era essa a real intenção por trás dos planos para que o capital mantivesse um exército de reserva e mantivesse baixos salários?
ResponderExcluirSara Brigida Farias Ferreira
Em primeiro lugar, muito obrigada Sara por sua pergunta! A migração para a Amazônia Oriental durante a década de 70 e 80, local e período em que tenho dedicado minha pesquisa geralmente são explicadas tendo como base o projeto de integração da Amazônia (PIN) desenvolvido sobretudo nos anos 70. A principal discussão que perpassa grande parte dos estudos, como os que apontei acima, indica que foram os projetos governamentais que mobilizaram a ocupação da região por meio de incentivos ficais através do Banco da Amazônia (BASA) e da superintendência de desenvolvimento da Amazônia (SUDAM). Estes incentivos possibilitaram o desenvolvimento de projetos agropecuárias por meio de concessão de terras e como consequência a formação de grandes fazendas no sul e sudeste do Pará. Existe ainda um outro desdobramento desses incentivos que seria desenvolvimento de projetos para extração mineral na região, mas não entro no mérito dessa discussão por causa do limite da pesquisa. Penso que "a condição de trabalho dos migrantes" na Amazônia no tempo em que delimito a pesquisa deve ser entendido a partir dessas discussões . Entretendo o historiador Pere Petit em Chão de Promessas apresenta um discussão que pode nos ajudar a pensar a respeito. Segundo ele ao longo dos anos 60 e 70, na Amazônia Oriental houve mudanças na politica econômica nacional que desencadeou a criação da SUDAM, política de administração do governo federal para a Amazônia. Uma das fases desse projeto destinava incentivos ficais para o desenvolvimento de políticas agrícolas para dinamizar o mercado regional, nacional e internacional. O objetivo era substituir as importações nacionais por diferentes produtos agropecuários. Por outro lado, essa política tinha a pretensão de diminuir a produção extrativista e a produção agrícola de subsistência na região, pois estas eram consideradas o principal motivo de atraso econômico da Amazônia (PETIT, 2003). Nesse sentido pode-se notar um interesse do "planejamento estatal" em ter mão-de-obra capaz de atender às politicas do governo. Mas, no período o qual concentro a minha pesquisa não posso falar que os migrantes recebiam salários, uma vez que a grande maioria eram ocupantes, meeiros, parceiros e arrendatário de terras. Penso que a sua pergunta é importante e demandaria outras leituras e uma pesquisa mais atenta.
ExcluirBárbara,
ResponderExcluirPrimeiro parabéns pela pesquisa e pela escrita (que conheço um pouco)...
Ao ler esse seu texto fiquei pensando algumas questões sobretudo a partir das discussões que realizamos com Paul Ricoeur (na disciplina de Teoria da História), em especial as relações que envolvem a memória arquivada e depois que envolvem construção da representação na perspectiva do autor... a complexa "engenhosidade" que envolve essa operação...
Você escreve "A discussão que perpassa esse momento da pesquisa é a de que a escrita acadêmica junto aos arquivos e outros lugares de memória inscrevem a violência na memória e na identidade da região se entrelaçando a uma lembrança expressa na oralidade". Fiquei refletindo essa sentença... ela em alguma medida sugere uma leitura como se a violência estivesse "coisificada" na memória... Também fiquei a pensar, como poderia sustentar a afirmação que a escrita acadêmica "inscreveu essa violência na memória"? Com base em que elementos? Suas entrevistas fornecem indícios com os quais você pode afirmar essa questão? Também fiquei a pensar sobre qual ideia/concepção de memória e de identidade você está mobilizando...
Gostaria, se possível, saber como você pensa a respeito dessas questões.
Este comentário foi removido pelo autor.
ExcluirObrigada professor Erinaldo pela sua contribuição! Penso que o uso da palavra "inscrição da violência na memória" foi empregado tentado mostrar que a memória da violência expressa nos escritos, nos arquivos e nos lugares de memória sobre a violência são meios de lembrar o passado e como tal contribuem para se construir uma memória sobre a violência na região, que é perceptível na oralidade dos entrevistados. Por outro lado, essa memória sobre a violência compõe a identidade do lugar. É provável que a o verbo inscrever não seja o mais adequado. Estarei pensado melhor a respeito e revisando a construção do texto. O seu segundo questionamento "como poderia sustentar a afirmação que a escrita acadêmica "inscreveu essa violência na memória"?". Sustentamos essa discussão no texto original usando a discussão de Aleida Assman quando afirma que desde o século XIX as mídias (que nesse caso são textos acadêmicos) também podem ser um suporte mnemônico pois estes "fundamentam e flanqueiam a memória cultural como suportes materiais dela, e que interagem com a memória de cada um" (Assman, 2011, p.24). Percebo aí mais um momento do texto que precisava ter passado por uma revisão.
ExcluirOi Bárbara...
ExcluirNão precisa se preocupar necessariamente em revisar. Você faz uma excelente pesquisa. Coloquei essas questões para refletir mesmo e não necessariamente para mudar (mas caso perceba que precisa polir melhor, sempre é possível essa operação, afinal nenhuma escrita está perfeita)... Minha reflexão foi se atentar para a questão sobre ser a memória: a) uma construção social (quase um jargão essa frase) mas o que eu quero dizer com ela é: I - A memória sendo uma construção social significa que ela necessariamente tem as "digitais" do espaço onde é fabricada, ou seja, ela apresenta as singularidades das disputas, dos enfrentamentos, das lutas e enfrentamentos que permitiram sua emergência; II - a memória como construção social significa apreendê-la e percebendo seu "DNA temporal", ou seja, ela mostra as condicionantes que tornaram possível sua construção naquele tempo, as relações de poder que permitiram essas memórias se configurar de uma forma e não de outra... III - a memória como construção social (agora especificamente a partir dos relatos de memórias construídos pelas fontes orais), significa ainda entender que ela carrega as insígnias dos/as sujeitos que nos brindam com suas reconstruções, representações e interpretações, ou seja, essa memória é um "substrato" de um complexo conjunto de variáveis mediado pelas intenções e tensões constantes no ato da produção dos relatos orais.
Isso vale dizer que, não é porque determinada autor/a defende certas questões (ligadas as pesquisas sobre a memória pesquisada por ele, que tem características específicas do tempo e do espaço onde foi construída) que serve para a memória da violência ligada à luta pela terra no Sul e Sudeste do Pará...
O que significa dizer que as pessoas ao nos apresentarem um relato de memória estão pintando com palavras sua imagem e a interpretação que têm dos fenômenos relembrados...
Isso tudo para dizer o quão complexo significa afirmar que a escrita acadêmica inscreveu na memória determinadas impressões... Penso que seria interessante distinguir (ou explicar melhor) o que você se refere por memória quando você diz que a escrita acadêmica inscreveu na memória.... de quando você se refere à memória das pessoas que você entrevistou... não memórias muito distintas, a meu ver...
No mais, parabéns pelo trabalho...
Obrigada novamente professor pelas suas reflexões! Vou pensar melhor sobre cada uma delas. Abraços!
ExcluirBárbara,
ResponderExcluirParabéns pela pesquisa.
Gostaria de saber o que teria motivado você a fazer esse estudo ? quais foram suas inquietações? Gostaria de saber um pouco mais do seu lugar de fala. Gostaria de saber qual seu critério pra escolher seus entrevistados e se os mesmo são todos migrantes que conseguiram as terras por meio da luta ou compraram uma terra oriunda de projetos de assentamentos?
o que me leva a fazer tais perguntas é o fato de ter morado em uma terra que inclusive até hoje meu pai mora. Meu pai não foi o primeiro morador, ele comprou de alguém. se ele for entrevistado e perguntarem como conseguiu a terra vai dizer que comprou, porem não saberia dizer se o primeiro morador a conseguiu por meios pacíficos ou derreamento de sangue ai fico com essas inquietações. O PA que meu pai mora a maioria dos primeiros moradores já não estão mais lá, inclusive tenho uma pesquisa engavetada sobre a localidade.
Mas uma vez parabéns, seu trabalho possibilita novas leituras, novas reflexões. Vera Lima
Obrigada Vera por contribuir com o debate partindo dessa perspectiva sobre o nosso lugar de fala. Minha família assim como outras que conheci na minha infância e adolescência são migrantes de outros estados. Notei que eu poderia contribuir com a produção do conhecimento histórico sobre região estudando a história de vida dessas famílias. De fato eu comecei a pensar a minha pesquisa do mestrado pensando algumas questões sobre a vida da minha famílias e dos meus vizinhos. Pretendo explorar esse lugar de fala na minha pesquisa. O contato com os escritos sobre a luta pela terra foram feitos ao mesmo tempo em que eu pensava essas questões. No principio eu fiz uma lista de possíveis pessoas que eu conhecia e que chegaram em Xinguara ao longo dos anos 70 e 80. Listei umas 15 pessoas. Destes apenas 9 foram entrevistados. Entrevistei aqueles que foram mais acessíveis, já que 5 deles não aceitaram ser entrevistados ou não tinham disponibilidade. As formas de acesso a terra identificadas durante as entrevistas ocorreram de diferentes maneiras. Encontrei casos em que os migrantes participaram de ocupação, outros foram arrendatários, meeiros ou parceiros, e outros que negociaram o lote de terra. Penso que a minha pesquisa da graduação pode te ajudar a pensar a experiência vivida pelo seu pai. Eu discuti nessa pesquisa formas de acesso a terra num projeto de assentamento aqui em Xinguara. Dentre outras questões eu discuto a dinâmica de negociação de terra dentro dos Projetos de Assentamentos. Se quiser posso de enviar e lá você poderá ter acesso às algumas leituras que fiz e vai te ajudar a entender a experiência vivida pelo seu pai.
ExcluirBarbara, parabéns pela pesquisa e pelos avanços feitos. Seu trabalho é muito pertinente
ResponderExcluirObservei que uma das categorias mobilizadas na pesquisa é a “violência”. Quais autores e autoras são usados para pensar essa categoria? Há somente um tipo de “violência” no local? As entrevistas e outras fontes te permitem pensar em outras violências como a violência simbólica, armada, estrutural, social? Em outras palavras, quais “violências” estão presentes nas narrativas das fontes usados em sua pesquisa?
Uma outra inquietação é de natureza metodológica. Tendo em vista o cenário de pandemia que estamos vivendo quais estratégias você utilizou em sua pesquisa para realizar as entrevistas? Quais dificuldades encontrou? Como as contornou? E se em seu texto de dissertação pretende-se pensar em como o isolamento social modificou pesquisas que envolvem a história oral? Abraços (Luis Lima de Sousa)
Em primeiro lugar a "categoria" sobre a violência que aparece no texto é a violência resultante do conflito da luta pela terra. Então alguns autores que citei ao longo do texto e nas referências fazem um discussão a respeito. Um dos objetivos do texto é mostrar que essa discussão está sustentada dentro das Universidades devido a grande quantidade de escritos sobre esse tipo de violência. No primeiro capítulo da dissertação eu mostro que a memória dos migrantes refletem bastante a violência da época e algumas delas seriam "As lembranças mais frequentes sobre os atos de violência que apareceram entre as memórias do lugar são sobre: os cadáveres encontrados a céu aberto pelas ruas do povoado, ossadas encontradas sob a terra removida, assassinatos de ocupantes de terra, assassinato de comerciantes e assassinatos de pistoleiros (geralmente como forma de reação à ordem de um fazendeiro), expulsão e despejo da terra e mortes por motivos tolos como bebedeiras no cabaré". ´Penso que expor o cadáver nas ruas pode ser entendida como uma violência simbólica. Essa prática aparece nos relatos dos entrevistados. Sobre a violência estrutural e social eu precisaria estudar mais a respeito, são conceitos que não domino, então não consigo discutir aqui. Então, sim, a violência aparece ao longo das entrevistas, inclusive é essa conclusão do primeiro capitulo da dissertação: a violência da luta pela terra além de ser sustentadas nos escritos sobrea a região e aparecer expressa em lugares de memória como a curva do S em Eldorado dos Carajás, ela também aparece com frequência na oralidade dos entrevistados.
ExcluirUma outra inquietação é de natureza metodológica. Tendo em vista o cenário de pandemia que estamos vivendo quais estratégias você utilizou em sua pesquisa para realizar as entrevistas? Quais dificuldades encontrou? Como as contornou? E se em seu texto de dissertação pretende-se pensar em como o isolamento social modificou pesquisas que envolvem a história oral?
ExcluirAs estratégias de pesquisa que utilizei foram entrevistas presenciais antes da pandemia (em todos os casos estive na casa dos entrevistados) e entrevistas remotas através do celular e do computador durante a pandemia. Para as entrevistas remotas eu usei um programa no computador para capturar o som, mas é possivel fazer também a captura da imagem. Eu penso, e daí é uma impressão pessoal, pois preciso ler e refletir mais a respeito, que a entrevista remota se diferencia da entrevista presencial no que diz respeito a interação com o entrevistado, ou seja, uma iteração mediada por sistemas de informação. Então não tive muitos problemas. Até que ponto isso interfere na memória dos entrevistados, ainda não consigo discutir. Porém uma das entrevistadas, uma senhora de 79 anos, precisou de auxilio para usar o celular, então tinha uma pessoa participando da entrevista e reproduzindo as perguntas. Selecionei algumas leituras (bem poucas) para ajudar a pensar a respeito e sim, pretendo apontar na minha pesquisa como a pandemia mudou o curso da pesquisa, mas não aprofundarei a discussão devido o limite da pesquisa.
Obrigada Luís pelas perguntas! Abraços
ExcluirOlá Bárbara.
ResponderExcluirFiquei maravilhado com sua pesquisa. Muitos autores que serviram como referência no assunto que estou pesquisando, encontrei presentes em sua referências bibliográficas, o que me deu um ar de felicidade por saber que pelo menos, estou caminhando por um caminho que me apresenta, muita riqueza de informações.
As questões fundiárias e as disputas por terras na região sul e sudeste da Pará, são de uma vastidão de episódios, mas que sempre irão ter como ponto de convergência, a luta de classes, o conflito social entre capital e campesino. Isso é de uma extrema dificuldade, pois as memórias são refletidas muitas das vezes nas narrativas de sangue e saudades, das fontes.
Queria parabenizar pela temática e principalmente por me mostrar que, também como sua pesquisa, me pode ser uma excelente fonte escrita e que num futuro muito breve, me oferecerá as referências, que por ventura eu ainda não tenha percebido.
Parabéns.
Obrigada Jair pelo seu comentário. Fico feliz em saber que minha pesquisa tem servido como motivação e como apontamento de leituras para você. Sucesso na sua pesquisa! Se quiser, num momento oportuno podemos trocar mais experiências. Abraços!!
ExcluirBárbara, seu está excelente! Como você mesma apontou, o tema da luta pela terra no Sudeste paraense é bastante amplo e cheio de particularidades locais e regionais. A memória coletiva da violência é, sem dúvida, um marcador que agrega diferentes formas de migração, assentamento e projetos coletivos. Você vê esforços por parte das pessoas com quem você teve oportunidade de ter contato de re-pensar/recriar outro tipo de memória? Talvez pela via de uma linha narrativa enfocando em um esforço coletivo que teve êxito (apesar de tudo)?
ResponderExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ExcluirObrigada professora Maria Clara!
ExcluirA memória da Senhora Maria da Guia que aparece na minha pesquisa como uma referencia da luta pela terra apresenta essa possibilidade de "re-pensar/recriar outro tipo de memória enfocada no esforço coletivo". As suas lembranças apresentam um percurso de como que as famílias, que ocuparam as áreas de terra daTupã-Ciretrã em Xinguara, conseguiram chamar a atenção de diferentes atores para o conflito de terra da região e como isso acabou desencadeando a criação do Projeto de Assentamento e o atendimento de outras demandas para o projeto de assentamento.
Na região sempre houve a violência contra os migrantes desde do trabalho na coleta da castanha e do caucho, onde foram desapropriados dos seus locais de subsistência, não havendo resistência na época, e se percebe que só depois da década de 1970 houve uma organização para resistência dos tralhadores em defesa desses espaços de trabalho. Com a vinda do migrante principalmente os vindo do nordeste do pais, podemos dizer que estes foram os responsáveis pela construção da resistência, por ter vivenciado as formas de organização de resistência de luta pela terra em em sua região de origem?
ResponderExcluirAna Cristina Sousa dos Santos
Mestranda do PDTSA/2020
Muito obrigada Ana Cristina! A sua pergunta é muito importante para pensarmos o problema da violência na nossa região. Como o meu objeto de estudo não é estudar o movimento de resistência dos trabalhadores rurais na região onde moro (Sul do Pará) eu sugiro que você pesquise os trabalhos do historiador Airton dos Reis Pereira. Ele discute as transformações desses movimentos ao longo do tempo na sua tese de doutorado Do posseiro ao sem terra a luta pela terra no sul e sudeste do Pará. Seria bom pesquisar sobretudo o capítulo 7 quando ele discute o deslocamento da luta pela terra nestas regiões. Uma das conclusões que eu cheguei no capitulo 1 da minha pesquisa é que, está violência que percebemos como persistente nas regiões onde moramos, sobretudo na década de 70, elas são expressivas nos escritos sobre a região assim como em alguns lugares de memória, como na Casa Azul em Marabá e nos arquivos da CPT. São lugares que nos lembram e mantém a memória dos atos violência, usando as suas palavras, "contra os migrantes". Por outro lado, essa violência ela também é perceptível na oralidade dos entrevistados. A sua pergunta é importante no sentido de nos ajudar a pensar uma inflexão que seria pesquisar a memória do trabalhadores rurais que resistiram á luta pela terra. Como sugeriu a professora Maria Clara na pergunta a cima: re-pensar/recriar outro tipo de memória Talvez pela via de uma linha narrativa enfocando em um esforço coletivo que teve êxito (apesar de tudo)" .
ExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ExcluirGostaria de reiterar que eu uso a expressão "minha pesquisa", mas as conclusões deste trabalho de pesquisa aconteceu compartilhando experiências com a minha orientadora Anna Carolina. Precisamos lembrar que nossas pesquisas acontece sempre entre os pares, nunca isolada.
ExcluirAbraços!
Parabéns pelo texto e pela abordagem, eles se mostram instigantes.
ResponderExcluirA violência presente no processo de ocupação da região Sul e Sudeste do Pará é um fato de conhecimento público dentro e fora do país, e como apresentado no artigo envolve diferentes atores, foi e é objeto de debate de diferentes grupos sociais e acadêmicos. Duas questões. Sobre a questão da violência, fala-se muito da omissão do estado. A pergunta é: sua pesquisa contempla algum aspecto onde o estado figura como promotor ou garantidor da violência praticada ao longo desse processo?
Em contraponto às memórias sedimentadas em relação à questão da violência, existe um discurso na região que procura por um lado promover a ideia de uma "justa violência", que aconteceria para combater "invasores" e aproveitadores, e por outro promover o discurso do progresso, reforçando o protagonismo do agronegócio e do grande capital, e invisibilizando as práticas e lutas das populações locais. Seu trabalho aborda algum elemento dessa contraposição de discursos? Como você, que tem tão brilhantemente estudado esta questão, percebe esta realidade?
José Paulo Lopes Monteiro
Prof Historia - Xinguara
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ExcluirPrimeira pergunta: sua pesquisa contempla algum aspecto onde o estado figura como promotor ou garantidor da violência praticada ao longo desse processo?
ExcluirEssa discussão é sustentada pelos estudos dos pesquisadores citei ao longo do texto. Por exemplo a discussão do cientista político Anthony L. Hall. Para Hall foi uma “estratégia desequilibrada de desenvolvimento da região” promovida pelo estado que provocou uma crise fundiária na Amazônia e, sobretudo a “violência rural” (HALL, 1991). Se você fizer uma leitura das referências que listei no fim do texto de algum modo todos eles trazem essa discussão de que o problema da violência na Amazônia, sobretudo no sul e sudeste do Pará ganhou contornos durante os governos militares devido as politicas de integração nacional. A nossa pesquisa segue um outro percurso que é mostrar que as pesquisas acadêmicas, junto aos arquivos e os lugares de memória como a curva do S em Eldorado e a Casa Azul em Marabá são meios de lembranças da violência e de alguma maneira contribuem para a que essa memória se mantenha presente entre nós.
Segunda pergunta: Em contraponto às memórias sedimentadas em relação à questão da violência, existe um discurso na região que procura por um lado promover a ideia de uma "justa violência", que aconteceria para combater "invasores" e aproveitadores, e por outro promover o discurso do progresso, reforçando o protagonismo do agronegócio e do grande capital, e invisibilizando as práticas e lutas das populações locais. Seu trabalho aborda algum elemento dessa contraposição de discursos? Como você, que tem tão brilhantemente estudado esta questão, percebe esta realidade?
ExcluirComo afirmei anteriormente, a nossa pesquisa segue um outro percurso que é mostrar que as pesquisas acadêmicas, junto aos arquivos e os lugares de memória como a curva do S em Eldorado e a Casa Azul em Marabá são meios de lembranças da violência e de alguma maneira contribuem para a que essa memória se mantenha presente mas acrescento ainda que esses meios de lembrar também podem contribuir para a formação de uma memória que se expressa na oralidade dos entrevistados já que a maioria durante as entrevistas lembram da violência do lugar em muitos casos entrelaçadas à sua trajetória de vida.
Oi Barbara . Nossa que trabalho interessante. Gostaria muito de poder ler seu trabalho de graduação. Estas questões sobre acesso e disputa de terras me inquietam muito e no futuro tenho interesse em escrever um artigo sobre a temática, mas partindo daqui de Itupiranga e mais especificamente do PA Rainha onde meu pai mora. Assim que tiver um tempo me envie seu trabalho de graduação, obrigada. Vera Lima
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