A FESTA DO MILHO NA ALDEIA GAVIÃO KYIKATÊJÊ: DIÁLOGO E REFLEXÃO ACERCA DA DIVERSIDADE CULTURAL INTERCULTURAL

Adelaide Severino do Nascimento
Mestranda em Dinâmicas Territoriais e Sociedade na Amazônia
Bolsista FAPESPA adelaidenascimento@unifesspa.edu.br
Alexandre Silva dos Santos Filho 
Professor do Programa de Pós-Graduação em Dinâmicas Territoriais e Sociedade na Amazônia alixandresantos@unifesspa.edu.br

RESUMO
A pesquisa aborda a interculturalidade no contexto da educação indígena. E tem como objetivo apresentar uma perspectiva sobre educação intercultural, evidenciando a interrelação entre a festa do milho e a educação escolar indígena da Escola Tatakti localizada na Terra Indígena Mãe Maria no município de Bom Jesus do Tocantins, no estado do Pará. A metodologia baseia-se na abordagem intercultural, qualitativa, de observação participante; com entrevista semiestruturada e conversas informais com os membros da aldeia. É uma pesquisa que tem o diálogo e a reflexão acerca da diversidade cultural a partir da festa do milho, evento este que faz parte do cotidiano da aldeia e constitui-se parte da cultura do povo Gavião, relativa à vivência e os costumes ancestrais. A fundamentação teórica reúne estudos em Bhabha (2002), Cool (2009), Perez (2002), Huizinga (2014) e Santiago (2013). Aponta-se para o respeito dos saberes tradicionais e o dialogo cultural intercultural entre a cultura dos Kyikatêjê a partir da educação indígena em contraste com a educação escola indígena.
Palavras-chave: Educação. Cultura. Intercultural. Festa do milho. 

1.INTRODUÇÃO
As discussões sobre as diferenças entre as culturas estão presente nas salas de aula, contudo debater relações que geram conflitos provocam tensões, reações de intolerância, mas por outro lado motivam diversas iniciativas que promovem a afirmação, o respeito mútuo, a aceitação da diferença e também a construção de uma sociedade em que todos possam ser plenamente aceitos.

Neste contexto surgiu uma preocupação por parte dos professores que passaram a buscar novas práticas pedagógicas para dialogar com essa realidade educativa que vivenciam, deste modo passaram a trabalhar questões referente a problemática tanto na escola como nos aspectos culturais, objetivando construir uma educação intercultural – visto está presente a convivência entre a educação indígena e a educação escolar indígena. Assim este estudo preocupa-se com diálogo cultural intercultural entre a educação e a diversidade que envolve o povo indígena Gavião Kyikatêjê, neste estudo vislumbrada pela festa do milho. 

A pesquisa está fundamentada na educação cultural intercultural e a festa que são desenvolvidas como prática ancestral do povo Gavião. Pode-se erguer diálogos conceituais com Santiago (2013), Cool ( 2009), Bhabha (2002), Huinzinga (2014) e Perez (2002). Uma vez que se trata de uma reflexão na perspectiva intercultural capaz de mobilizar as práticas culturais desenvolvidas durante a festa do milho e em torno das aulas que acontecem na Escola Tatakti.

A festa do milho faz parte da cultura do povo indígena Gavião Kyikatêjê, na qual comemoram a fartura de alimentos durante os meses de chuvas da região amazônica, o evento é considerado também como abertura das outras festas que acontecem na aldeia. Nesta ocasião são transmitidos valores, ensinamentos e se trabalha a permanência dos costumes. Com o destaque para o milho, o evento apresenta algumas atividades que giram em torno deste, como a construção das petecas usadas em um jogo realizado na festa, neste os indígenas ficam em círculo e lançam a peteca para os outros integrantes, com objetivo de não a deixar cair e também para a degustação. Neste sentido, com o incentivo do cacique Pepkrakte Ronoré, enxergamos a festa do milho como elemento para trabalhar a diversidade cultural e a interculturalidade no contexto educacional da escola da aldeia, que até então não tem em seu currículo nenhuma disciplina voltada para o contexto sociocultural do grupo.

Deste modo consideramos o estudo relevante porque promoverá para o público escolar debates sobre a diversidade cultural e interculturalidade, fundamentais para o processo de formação do indígena, pois trazem consigo a história do grupo e a conscientização que os aspectos socioculturais da vida em comunidade são essenciais para o aprendizado. 

Tendo como base esses aspectos é que o objeto de estudo desta pesquisa se apresentou como uma proposta intercultural. Assim sendo, a pesquisa analisa práticas educativas interculturais no nosso contexto escola da aldeia Kyikatêjê.

2. METODOLOGIA
Esta proposta de investigação se coloca no campo das ciências humanas e assume características de observação participante, com enfoque na história oral, à medida que se propõe a refletir sobre o papel da festa do milho na cultura do povo indígena Gavião Kyikatêjê. Segundo Denzin & Lincoln (2006, p.17).

A pesquisa qualitativa é uma atividade situada que localiza o observador no mundo. Consiste em um conjunto de práticas materiais e interpretativas que dão visibilidade ao mundo.” Embora se torne possível elaborar o conceito da pesquisa qualitativa, o autor aponta a necessidade de compreensão histórica, uma vez que a pesquisa qualitativa é um campo de investigação, que acompanha as mudanças ocorridas no local.

A história oral foi, então, um dos métodos encontrado para registrar a festa do milho, que se constitui, em parte, pelas narrativas dos mais velhos que estabelecem uma conexão com presente do grupo, pois a festa do milho é um evento anual e faz parte do calendário da aldeia Kyikatêjê. 

A pesquisa teve como base metodológica a interculturidade aplicada por Coll (2002), que explica: “a interculturalidade não pode significar o estudo de uma cultura, ou das relações entre duas culturas diferentes, com base nos critérios e valores de apenas uma delas ou de um ponto de vista considerado neutro e universal”. Coll (2002) explica ainda que por meio da interculturalidade é possível compreender a representação de cada cultura. Deste modo a pesquisa terá um encontro com o estudos culturais que acontecem na aldeia, pois a interculturalidade como método é uma forma eficaz de estimular os diálogos sobre a diversidade cultural.

2.1 Local e contexto do estudo
A pesquisa foi desenvolvida na aldeia Indígena Gavião Kyikatêjê. A aldeia indígena Gavião Kyikatêjê compõe o complexo de aldeias que forma a Terra Indígena Mãe Maria. Fica localizada no quilômetro 25 da BR 222, margem esquerda, sentido Marabá-Bom Jesus do Tocantins. 

A Terra Indígena Mãe Maria é um complexo de 16 aldeias, situada entre os municipios de Marabá e Bom Jesus do Tocnatins, onde habita o Povo Gavião do Pará, nome dado pelo kupẽ em razão do uso de penas do pássaro gavião na ponta das flechas. 

2.2 Participantes da Pesquisa
Os sujeitos da investigação serão:
Os membros da comunidade que participam da festa do milho.
As lideranças da aldeia; os sábios indígenas da aldeia Gavião Kyikatêjê. 

2.3 Procedimentos de Constituição dos dados.
A pesquisa tem corte longitudinal de aproximadamente 01 ano, e fez-se por:

Observação e registro em diário de Campo do cotidiano das crianças, jovens e demais membros da comunidade vivenciando, em seu ambiente familiar, na aldeia e em seus eventos culturais, desta forma relatarei os aspectos mais importantes que envolve o regaste da brincadeira do macaco;

Entrevista semiestruturada a partir de um roteiro pré-elaborado com as lideranças indígenas para identificar o papel da festa do milho no projeto societário da aldeia.;

Entrevista oral com os sábios velhos, no intuito de identificar a história que envolve o evento na cultura Gavião Kỳikatêjê 

5.5 Análise dos dados
A análise da pesquisa utilizou-se o método de levantamento de dados caracterizado pela interrogação direta das pessoas envolvidas com a festa do milho e consequentemente sua interrelação com a educação desenvolvida na escola Tatakti. 

Das entrevistas, comparamos as respostas dos membros mais velho com os mais novas a fim de perceber o grau da relação que tinham com os aspectos culturais da aldeia. As conversas formais e informais foram desenvolvidas sem interrupção, ou seja, não existia um roteiro pré-estabelecido, pois desta forma acreditamos que os entrevistados ficariam mais à vontade para detalhar o que desejassem. No caderno de campo, a análise foi feita a partir do conteúdo da escrita, já que neste continham percepções que somente as entrevistas não revelariam. 

A participação observante foi muito importante para compreendermos como acontecia a festa do milho; a avaliação se deu por meio de imagem sobre o evento que demonstrou cada etapa da festa.

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU DISCUSSÕES
Nesta pesquisa temos como referenciais teóricos autores que abordam a temática que envolve o objeto de estudo desta pesquisa, com o propósito de aprofundar a problemática da interculturalidade nos contextos educativos. O estudo refere-se ao próprio conceito de interculturalidade e educação intercultural. Apresentamos alguns desses autores. Neste sentido, Coll (2002), afirma que a interculturalidade.

Interculturalidade é o encontro não só das categorias lógicas dos sistemas de signos e das representações de cada uma das culturas, como também das práticas, crenças e matrizes, dos símbolos, rituais e mitos e, em último lugar, da totalidade da realidade existenciais que cada uma delas, à sua maneira, constitui de forma única. (COLL, 2002, p.51

Quanto ao segundo eixo do referencial teórico, foi centrado na educação intercultural. Nele, apresentaremos as contribuições de Santiago (2013) que explica: “o debate político sobre a educação intercultural nos leva a enfatizar a importância das relações de poder entre diferentes grupo, visibilizando a luta pelos direitos das minorias étnicas como produto intenso conflitos e lutas nas arenas sociais” (SANTIAGO, 2013, p.10).

A construção do processo de educação intercultural faz parte do debate político sobre a educação intercultural que ainda segundo Santiago (2013) “existe uma necessidade de mudança do paradigma educacional quando se lida com a diferença cultural na escola. Através destas referências desses eixos teóricos, assim entendemos que a interculturalidade é concebida como um elemento ético, político e epistêmico. Nesta perspectiva, os processos educativos são fundamentais para a interligação com a diversidade cultural local e o evento da festa do milho.

Neste sentido, podemos compreender a festa do milho como um modo festivo de celebrar a cultura do grupo Gavião e tem como uma das principais finalidades comemorar a época de fartura de alimentos da aldeia. Deste modo para entender o sentido de festa adotamos como base as teorias de Perez (2004) e Huizinga (2014). 

A festa é um fenômeno que decorrente de todas as culturas com vários significados, contudo definir o que seja festa não é uma tarefa fácil. Perez (2004) faz o seguinte questionamento: Por que será que não se consegue constituir uma teoria da festa? E assegura que o termo festa denomina, mas não conceitua o fenômeno. Perez (2004, p. 17), explica também que festa é: “uma forma lúdica de sociação e como fenômeno gerador de imagens multiformes da vida coletiva, que busca mostrar como o vínculo social pode ser gerado a partir da poetização e estetização da experiência humana em sociedade”. Assim, o estudo da festa tem elementos para pensar os ligamentos que fundamentam a experiência humana como por exemplo a experiência do povo indígena Gavião durante a festa do milho.

Desta maneira podemos entender a festa do milho como uma experiência humana que expressa alegria e um vínculo social entre os membros da aldeia. Huizinga (2014), destaca em seu estudo as principais características de uma festa: a) atividade voluntária – liberdade- A festa é uma atividade voluntária que oferece total liberdade para os participantes. b) faz de conta - A manifestação acontece como conexão entre a vida real e o faz de conta, para exemplificar essa característica da teoria de Huizinga, tomaremos como exemplo o faz de conta que ocorre durante a festa do milho, alguns rituais são marcados por imitações de animais que fazem parte da fauna amazônica como a cotia, a arara e o Gavião. 

Assim, esta pesquisa está situada nas inter-relações entre educação e a cultura, realizando uma proximidade com a teoria Bhabha (2007), que explica ser necessário, olhar além das origens ou dos aspectos originais da cultura, e sim observar o que acontece quando existe interação entre elas: “Esses ‘entre-lugares’ [...] dão início a novos signos de identidade e postos inovadores de colaboração e contestação, no ato de definir a própria ideia de sociedade.” (BHABHA, 2007, p. 20). Assim, a festa do milho apresentar-se ao longo deste estudo como uma proposta de interação entre culturas, uma vez que, para contextualizarmos como conteúdo específico necessitamos interligar o saber cultural dos membros da aldeia com o currículo utilizado na escola Tatakti.

Neste sentido, acreditamos que em relação ao contexto sociocultural, os Kyikatêjê são povos que vivem diariamente interligados interculturalidade, pois verificamos ao longo da pesquisa de campo que o contato do grupo com outras culturas resultou nesta inter-relação, que acontece através dos contatos que o grupo estabelece fora da aldeia, através das compras objetos, dos estudos nas universidades e com tecnologia que existe na aldeia e fora dela.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Averiguamos, neste estudo, que a Escola Indígena Tatakti Kyikatêjê encontra dificuldade para inserir os aspectos culturais dentro da educação formal desenvolvida na aldeia, pois o que se segue como base disciplinar é a oferecida pela Secretária de Educação do Pará que não contêm disciplinas do universo indígenas durante o desenvolvimento das aulas.

No entanto, recentemente passou a existe uma notoriedade sobre as diferenças nas práticas escolares, algumas vezes por meio de conflito, o que tornou possível um diálogo sobre educação intercultural que vai se afirmando por meio de ações afirmativas. Assim consideramos a interculturalidade um elemento central neste processo de “reinventar a escola”, promovendo igualdade, diferença, saberes e práticas comprometidas com o fortalecimento da democracia e a emancipação social.

Neste sentido, reconhecer o direito à diferença tornou-se necessário para que exista a valorização, o reconhecimento e respeito a diversidades. É nessa lógica entre igualdade e diferença, entre ir além de toda a desigualdade e, ao mesmo tempo, reconhecer as diferenças culturais, que as provocações dessa articulação se colocam.

Para prosseguir na construção de práticas educativas interculturais é essencial o questionamento da lógica predominante nos processos educativos escolares e principalmente continuar com a prática de todas as diversidades culturais seja dentro ou fora da escola.

REFERÊNCIAS
BHABHA, H. K. O Local da Cultura. Trad. Myriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima Reis, Gláucia Renate Gonçalves. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007.

COOL, A. N. Propostas para uma diversidade cultural intercultural na era da globalização. São Paulo: Instituto Pólis, 2002. - (Cadernos de Proposições para o Século XXI ; 2) 

HUIZINGA, Johan. Homo Ludens: O jogo como elemento da cultura. São Paulo: Perspectiva, 2014. 

PEREZ, Léa Freitas. Por uma antropologia da festa: reflexões sobre o perspectivismo festivo. Simpósio “Festa: em perspectiva e como perspectiva”. XXIV Reunião Brasileira de Antropologia, Pernambuco, 2004.SANTIAGO, Mylene Criatina. Educação intercultural: desafios e possibilidades, Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.

Comentários

  1. Povo indígena Gavião Kyikatêjê, uma festa, uma história , uma forma de vivênciar a cultura...

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    1. Parabéns! É extraordinário a explanação dessa temática, logo que é um assunto que deveria ser mais abordado.

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  2. O estudo através da interdisciplinaridade e interculturalidade é uma realidade que vem sendo necessária e buscada nos últimos anos. Trazer a realidade, o dia a dia dos povos indígenas para dentro das escolas indígenas faz o ensino tornar-se atraente, prazeroso e valioso para os sujeitos construtores de sua própria história. Deixa de ser abstrato e torna-se real.

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  3. O estudo através da interdisciplinaridade e interculturalidade é uma realidade que vem sendo necessária e buscada nos últimos anos. Trazer a realidade, o dia a dia dos povos indígenas para dentro das escolas indígenas faz o ensino tornar-se atraente, prazeroso e valioso para os sujeitos construtores de sua própria história. Deixa de ser abstrato e torna-se real.
    Elizete de Lima Queiroz

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    1. Fazer com que os discentes indígenas aprendam por meio de sua cultura é muito gratificante..A pesquisa na comunidade Kyikatêjê proporcionou um momento de trocas e a interculturalidade foi fundamental neste processo..

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  4. Primeiramente parabéns pelo trabalho, nas suas reflexões, como a manutenção da cultura interfere na educação escolar indígena para além do espaço aldeia?

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  5. Bom dia! Levar a cultura que é mantida na aldeia para além dos seus limites é algo que contribui para o fortalecimento da mesma, mas infelizmente, a maioria das vezes,as instituições de ensino não aceitam e nem compreendem essa cultura o que interfere no desempenho acadêmico do indígena, que muitas vezes tem que faltar aula por respeito a cultura..Falta políticas de inclusão deste indígena nos espaços acadêmicos.

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. É necessário conhecer a cultura de um povo, para que esse não sofra ainda mais percas de sua história e identidade durante a sua formação educacional. É preciso estudos que contemplem a realidade dos indígenas para que não desperte o desinteresse pelos estudos. O indígena precisa de uma educação escolar indígena. É muito bem contemplado em sua pesquisa essa necessidade.

      Elizete de Lima Queiroz

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